Mendonça revê voto sobre Nossa Senhora Aparecida após conversas com ministros do TSE

Mendonça revê voto sobre Nossa Senhora Aparecida após conversas com ministros do TSE

Mudança preservou publicação do humorista Antonio Tabet, mas manteve restrições a conteúdos que atribuíam a Flávio Bolsonaro uma suposta iniciativa para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

O ministro André Mendonça reformulou parte de seu voto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o julgamento sobre publicações que relacionavam o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a uma informação falsa envolvendo Nossa Senhora Aparecida. 

A mudança ocorreu após conversas com o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, e outros ministros, segundo apuração divulgada pela jornalista Camila Bomfim, do g1, e repercutida por outros veículos.

A revisão permitiu a manutenção de uma postagem do humorista Antonio Tabet. Ao mesmo tempo, o tribunal manteve restrições a conteúdos que apresentavam como verdadeira a alegação de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A alteração, portanto, não representou a liberação de todas as publicações discutidas no processo. 

Liberdade de expressão entrou no centro da discussão

Em seu posicionamento inicial, Mendonça havia defendido a retirada de mais de mil publicações relacionadas ao caso, incluindo o conteúdo de Tabet. A abrangência da medida provocou discussões entre os integrantes do tribunal sobre os limites da intervenção da Justiça Eleitoral nas redes sociais.

Segundo a apuração de Camila Bomfim, ministros alertaram o relator de que a remoção de uma postagem de humor que não mencionava nominalmente o candidato poderia transmitir uma mensagem problemática sobre a proteção à liberdade de expressão.

Após os diálogos, Mendonça modificou seu entendimento sobre esse conteúdo específico. A reformulação buscou estabelecer uma distinção entre uma manifestação crítica e uma publicação que atribuísse ao candidato uma iniciativa concreta relacionada ao título religioso. 

Por que a publicação de Tabet foi liberada

A revisão ocorreu na noite de quarta-feira, 30 de setembro, antes do encerramento do julgamento virtual. Naquele momento, já havia maioria formada para manter a proibição inicialmente discutida.

Ao reconsiderar a retirada da postagem, Mendonça entendeu que o texto de Tabet não atribuía a Flávio Bolsonaro uma ação concreta para retirar da santa o posto de Padroeira do Brasil. 

O ministro destacou a necessidade de uma intervenção mínima e de proteção reforçada à liberdade de expressão. Os demais integrantes da Corte acompanharam a liberação desse conteúdo.

Depois da mudança, Tabet voltou a publicar a mensagem em suas redes sociais e comemorou a possibilidade de mantê-la disponível. A decisão referente ao humorista foi específica e não afastou as restrições aplicadas aos demais conteúdos abrangidos pelo julgamento. 

Caso também envolveu decisões no Supremo

A discussão ultrapassou o âmbito da Justiça Eleitoral e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

 O ministro Flávio Dino havia derrubado a primeira decisão individual de Mendonça, enquanto Luiz Fux posteriormente restabeleceu a determinação. Ambos pediram que a questão fosse submetida ao plenário.

Conforme a apuração repercutida sobre os bastidores, Nunes Marques levou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, sua preocupação com a sobreposição de decisões do STF sobre a Justiça Eleitoral. 

Fachin pediu que o assunto fosse discutido primeiro no TSE, levando à realização do julgamento virtual.

Nesse contexto, a revisão parcial do voto foi vista internamente como uma possibilidade de resolver a controvérsia na própria Corte eleitoral e reduzir a tensão institucional. 

O resultado preservou a manifestação de Tabet e manteve a retirada de publicações que tratavam a informação falsa sobre o candidato como um fato.