Sem perspectiva de cessar-fogo, guerra entre Irã, Israel e EUA se aproxima da quarta semana, amplia ataques a refinarias e gás natural e aprofunda temor de choque econômico global.
A guerra no Oriente Médio entrou em uma nova etapa de escalada nesta sexta-feira (20), com o novo líder supremo do Irã defendendo que a “segurança” dos inimigos seja retirada, enquanto Israel matou Ali Mohammad Naini, porta-voz e vice de relações públicas da Guarda Revolucionária iraniana. O conflito, iniciado em 28 de fevereiro, está prestes a entrar na quarta semana e, segundo agências internacionais, segue sem qualquer sinal concreto de cessar-fogo.
A fala mais dura de Teerã partiu do aiatolá Mojtaba Khamenei, sucessor do comando supremo iraniano, que pediu que os inimigos do país tenham sua “segurança” retirada. A declaração reforça o tom de retaliação adotado pelo regime em meio à pressão militar israelense e americana e mostra que, no momento, a liderança iraniana não trabalha com descompressão imediata da crise.
Do lado militar, Israel afirmou ter atacado alvos governamentais em Teerã, enquanto a televisão estatal iraniana confirmou a morte de Naini, considerado um dos rostos públicos da Guarda Revolucionária. Ao mesmo tempo, sirenes voltaram a soar em Tel Aviv e Jerusalém após novas barragens iranianas, num sinal de que Teerã mantém capacidade de resposta apesar das perdas sofridas em sua cúpula política e militar.
A principal mudança dos últimos dias, porém, é que a guerra deixou de se concentrar apenas em bases, centros militares e lideranças políticas para atingir com força a infraestrutura energética da região. Israel bombardeou o campo de gás de South Pars e o polo de processamento de Asaluyeh, no Irã, numa ofensiva que elevou ainda mais a tensão e empurrou Teerã para retaliar ativos energéticos no Golfo. South Pars é o maior campo de gás offshore do mundo e responde por cerca de 70% a 75% da produção iraniana de gás, base do abastecimento doméstico do país.
O impacto dessa ofensiva é profundo para o próprio Irã. Como a maior parte do gás produzido em South Pars é consumida internamente, o ataque atinge não apenas exportações, mas também eletricidade, calefação, cozinha doméstica e insumos petroquímicos. Após os bombardeios, o fluxo de gás do Irã para o Iraque foi interrompido, porque Teerã passou a redirecionar parte da oferta para o mercado interno.
A retaliação iraniana ampliou ainda mais o raio do conflito. Segundo a Reuters, o Irã atacou uma refinaria no Kuwait, enquanto outros ativos estratégicos do Golfo seguem sob risco. A guerra também já atingiu a infraestrutura de gás do Catar e levou líderes europeus a pedirem uma moratória contra ataques a instalações de energia e água no Oriente Médio, numa tentativa de frear um colapso maior na região.
Em Israel, os danos também se acumulam. Uma refinaria em Haifa foi atingida por ataque iraniano, com danos a infraestrutura considerada essencial, ainda que a maior parte da produção siga operando. Além disso, a empresa Energean suspendeu sua previsão de produção em Israel para 2026, citando o fechamento de operações por causa da guerra. O resultado é um cenário de insegurança energética bilateral, com prejuízos tanto para produtores quanto para consumidores.
No plano diplomático, o horizonte continua travado. Países europeus e aliados dos Estados Unidos sinalizaram disposição para discutir medidas de proteção à navegação, sobretudo no Estreito de Ormuz, mas condicionaram qualquer envolvimento maior a uma redução dos combates. Isso ocorre porque o estreito, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, segue sob forte perturbação, o que alimenta temores de inflação, choque de abastecimento e nova onda de instabilidade global.
Mesmo com o barril de Brent recuando levemente para perto de US$ 107 a US$ 108 nesta sexta, a avaliação de organismos e analistas é de que o dano ao setor energético não será revertido rapidamente. A Agência Internacional de Energia estima que a normalização de fluxos pode levar meses, e a Reuters relatou que parte da disrupção pode ter efeitos duradouros sobre gás e combustíveis. Isso significa que, ainda que as hostilidades diminuam no curto prazo, os reflexos econômicos e geopolíticos da guerra tendem a persistir.
No campo político, a escalada confirma que a guerra já ultrapassou a lógica de confrontos pontuais e passou a operar em múltiplas frentes: liderança iraniana, infraestrutura de energia, rotas marítimas e pressão internacional. Sem trégua à vista, a morte do porta-voz da Guarda Revolucionária e o discurso do novo líder supremo indicam que o conflito permanece em rota de agravamento, com consequências cada vez mais amplas para o Oriente Médio e para a economia mundial.



