Joseph Kent deixa comando do Centro Nacional de Contraterrorismo, diz que conflito não se justifica e acusa pressão de Israel sobre a Casa Branca
A guerra contra o Irã abriu uma nova frente de crise dentro do próprio governo de Donald Trump. Nesta terça-feira (17), o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joseph Kent, pediu demissão do cargo e afirmou que não poderia continuar apoiando a ofensiva militar em curso no Oriente Médio.
Em carta endereçada ao presidente americano e divulgada nas redes sociais, Kent declarou que o Irã “não representava uma ameaça iminente” aos Estados Unidos e sustentou que o conflito foi iniciado sob pressão de Israel. A saída do diretor expõe um racha relevante dentro da estrutura de segurança nacional do governo e reforça a divisão crescente entre aliados de Trump sobre a guerra.
“Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu Kent. “Está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano.”
O agora ex-diretor também afirmou que houve uma campanha de desinformação promovida por autoridades israelenses e setores da imprensa americana para convencer o governo de que um ataque ao Irã resultaria em uma vitória rápida. Na carta, ele comparou o atual momento ao ambiente político que antecedeu a Guerra do Iraque, conflito que classificou como desastroso.
Kent disse que Trump, em seu primeiro mandato, havia demonstrado entender melhor do que outros presidentes modernos como usar o poder militar sem mergulhar os Estados Unidos em guerras prolongadas. Segundo ele, esse princípio estaria sendo abandonado agora.
A renúncia ganhou ainda mais peso pelo tom pessoal da mensagem. Veterano de combate, Kent afirmou ter sido enviado 11 vezes para operações militares e lembrou a morte de sua esposa, Shannon, descrita por ele como vítima de uma guerra que não serviu aos interesses do povo americano.
“Não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas”, afirmou.
Horas depois, Trump reagiu publicamente e atacou o ex-auxiliar. Questionado por jornalistas sobre a saída de Kent, o presidente minimizou a demissão e disse que o ex-diretor era “muito fraco em segurança”.
“É bom que ele esteja fora, porque ele disse que o Irã não era uma ameaça”, declarou Trump.
Kent havia sido nomeado por Trump para o cargo em fevereiro de 2025. Na ocasião, o presidente exaltou o histórico militar do aliado e citou a morte da esposa dele na luta contra o Estado Islâmico como parte de sua trajetória.
A saída de Kent, porém, não é um caso isolado. A guerra contra o Irã tem provocado resistência entre nomes influentes do campo conservador e até entre apoiadores históricos do presidente. O ex-apresentador Tucker Carlson, um dos rostos mais conhecidos da direita americana, afirmou que o conflito “é de Israel, não dos Estados Unidos”. O podcaster Joe Rogan também se posicionou contra a intervenção.
A ala mais crítica dentro do universo trumpista argumenta que o presidente está se afastando da promessa de campanha de priorizar a agenda “America First” e evitar novos envolvimentos militares no exterior. Entre os descontentes estão veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, além de figuras conservadoras como a ex-congressista Marjorie Taylor Greene.
Esse grupo teme que o prolongamento do conflito desgaste Trump politicamente, sobretudo se houver aumento no número de baixas entre militares americanos e novos impactos sobre a economia, como alta do petróleo e pressão inflacionária.
A renúncia de Joseph Kent, portanto, vai além de uma mudança administrativa. Ela transforma em crise aberta uma divergência que já crescia nos bastidores e coloca em evidência o custo político da guerra dentro da própria base republicana.



