Defesa admite viagem de Lulinha com “Careca do INSS” a Portugal e nega elo com fraude bilionária

Advogado afirma que filho de Lula visitou fábrica de cannabis medicinal em 2024 a convite do lobista investigado, mas diz que não houve negócio, lobby nem recebimento de dinheiro.

A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, admitiu nesta segunda-feira, 16 de março de 2026, que o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou a Portugal, em 2024, ao lado do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, um dos principais investigados no escândalo dos descontos irregulares em aposentadorias e pensões. Segundo o advogado Marco Aurélio de Carvalho, a viagem teve como objetivo uma visita a uma fábrica de cannabis medicinal e não resultou em qualquer parceria comercial entre os dois.

A revelação lança novo foco sobre a relação entre Lulinha e o empresário preso desde setembro de 2025, em meio ao avanço das apurações da Polícia Federal e da CPMI do INSS. A defesa sustenta que o filho do presidente não participou das fraudes, não tinha conhecimento de eventuais irregularidades e jamais recebeu recursos desviados do esquema. Em notas e manifestações públicas, os advogados também negam que ele tenha atuado como intermediador de interesses junto ao Ministério da Saúde ou à Anvisa para beneficiar negócios ligados ao mercado de canabidiol.

O caso é investigado dentro da Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF e pela Controladoria-Geral da União em abril de 2025. Segundo os órgãos de controle, entidades investigadas aplicaram descontos indevidos em benefícios previdenciários e movimentaram um valor estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. A apuração se tornou uma das mais sensíveis da área previdenciária e abriu uma crise política em Brasília, com desdobramentos no Congresso e no Supremo Tribunal Federal.

No centro da suspeita envolvendo Lulinha estão relatos colhidos pela PF e mencionados na CPMI de que o empresário teria mantido proximidade com o “Careca do INSS” e poderia ter sido beneficiado por repasses indiretos. Reportagens publicadas nas últimas semanas apontam que investigadores analisam a existência de pagamentos de cerca de R$ 300 mil e viagens feitas em conjunto para Portugal, embora a defesa classifique essas versões como ilações sem prova concreta. Até o momento, não há acusação formal que atribua a Lulinha participação comprovada no esquema.

A ofensiva para aprofundar a investigação, porém, sofreu um revés recente. No início de março, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu a quebra de sigilos aprovada pela CPMI do INSS ao entender que os requerimentos haviam sido votados em bloco, sem fundamentação individualizada. A decisão não impede novas deliberações da comissão, mas exige análise caso a caso, o que deve atrasar o avanço da apuração parlamentar sobre Lulinha e outros alvos.

Com a confirmação da viagem, a defesa tenta estabelecer uma linha clara entre convivência pessoal e envolvimento criminal. Ainda assim, o episódio aumenta a pressão política sobre o entorno do presidente, num momento em que investigadores buscam esclarecer se a aproximação entre Lulinha e o lobista foi apenas circunstancial ou se integrou uma rede de influência ligada a um dos maiores escândalos recentes do INSS.